PROCURA-SE

2016

 

procura-se
um rosto
com seus olhos
e sua boca
com nosso amor
entre os dedos
e os seus cabelos
até a nuca
que arrepia toda
mesmo sem medo
não se paga ou aluga
nem precisa de entrega
saber que existe já é tanto
que o sorriso caí pro lado
e cantando fala ao vento
que te encontrei
adormecendo

SORRIA

2015

A vida é desapego

até que os sonhos secam

e ela, sorrindo,

nos desapega.

AMOR DE VERÃO

2014

 

Tenho amor pelo mar. Ele me leva em seus braços, envolve suas conchas e me nina enquanto atento vejo sua imensidão sumir em horizonte. Tenho amor tranquilo, desses que não é preciso se ver todos os dias ou sussurrar. Sei que ele tem muitos outros corais e que, muito embora pareça retribuir, prefere sua solidão de marés e mistérios. Passo meses sem notícias, viro noites e até me esqueço que ele existe, tudo para que quando nos encontremos seja intenso e verdadeiro. É amor de infância, de adolescência, de praia inteira. Em sua paz eu descanso e rodopio vestindo espuma e areia. Tenho inveja dos surfistas que o dominam e carinho pelas tartarugas que lhe surfam discretas. Meu mar é curto e vai até onde posso ver. Além disso ele não existe, é invenção que nem arrisco imaginar. Admiro de longe suas curvas e rotas, tento adivinhar seus próximos passos, tenho receio de suas noites, pois conheço suas ressacas. Sei que é tão profundo quanto qualquer amor verdadeiro, mas continuo em sua superfície com medo de me afogar. Quem sabe em um verão nos revemos novamente, e fazemos o que os casais apaixonados fazem sem apelos: nos entregamos e esperamos a próxima onda nos levar.

 

 

 

 

DESEJO

2013

 

que a felicidade não seja um sentimento

mas um estado

e que você more nele

e o país se chame amor

e os abraços se chamem pessoas

 

que quando acordar seja feito de menta

todo ar que você respirar

e quando inspirar

que seja com olhares

leveza

e um pouco mais de amor

 

que quando você crescer não fique grande demais

pra dizer que ainda sonha

que continua sem saber de nada

e sente falta de tudo

 

quando chegar a hora

espero que lá exista poesia

e que o resto seja consequência

espero que nos encontremos

e que eu seja o seu primeiro abraço

ou seu

só seu

pra gente poder ser

por onde formos

 

 

 

 

ELA E EU

2013

 

Ela só queria poesia
Eu só tinha amor
Ela só queria
Poesia eu só tinha
Amor
Ela só
Queria poesia
Eu só
Tinha amor
Ela
Só queria
Poesia eu
Só tinha amor
Só mesmo amor
Só mesmo, amor

 

 

 

 

DUO

2013

 

Caminho em sua direção com os dedos leves. Faço encantamento em um abraço solto que percorre a pele para ver o que você vê. E quando possível, apenas quando, nos vemos e nos impressionamos com o que temos. Frente a frente, queridos em estranhamentos, nos jogamos para fora de nossos pensamentos. Confia e não foge que em três segundos me entrelaço em você e somos nós que não se desprendem. Te deito, se deita, te busco, me acha, e somos nós tantas outras vezes. Nossa onda explode devagar em um mar aberto e viajamos para outros lugares que não nós mesmos. Descobrimos que podemos ser outros. Faz com que eu me levante e roda igual a mim, me espelha, sente... Que eu estou ao seu lado e te protejo do infinito dividindo alguns sonhos antes de dormir. Que horas são? Começa outra vez. Hoje sou eu que te levo, ainda que não precise. E lado a lado nos descuidamos. Viram os olhos, vira a cabeça, não somos nós. E você me ataca pelas incertezas das ruas. Mão, peito, costas, estica, alonga, vira, encolhe e espera mais um pouco antes que eu me vá. Sonha comigo que somos nós. E ficamos... Pra sempre.

 

Texto criado para o espetáculo (In)pressão, da Seis + 1 cia. de dança.

 

 

 

 

DESPEDIDA

2013

 

Passou um ônibus e levou meu sorriso. Da calçada, quase em meio-fio, senti como se a boca secasse, os olhos não mais se movessem, as bochechas se erguessem e as covinhas fugissem. Senti minha vida indo embora no assento 14-B e com ela tudo o que as janelas não podiam contar. Meu medo ali na agonia da despedida era que o sorriso fosse apenas um pretexto e eu ficasse assim sem fala em uma estação de desilusões. Quase seis, fim de tarde e meu silêncio conspirava. Conforme o ônibus ia-se e meu peito se desenchia lembrava de como era sorrir e o que me inspirava. Ao meu lado uma menina de vinte e poucos anos, morrendo em lágrimas, gritava para os pombos das construções vizinhas que o amor da vida dela nunca mais iria voltar. Puxei todo aquele ar poluído para dentro dos pulmões, fechei com dificuldade os olhos ainda secos, fiz que me importava e então, felizmente, sorri um sorriso satisfeito. Não que fosse julgar aquela idiotice toda, mas não seria um ônibus e seu assento 14-B que levaria para longe minha exposição de dentes em alegria. Sorri ao me lembrar que o próximo ônibus estava para chegar, de que todos os seus assentos se esvaziariam rapidamente e talvez o 9-A, o 17-C ou alguma outra junção de número com letra fizesse minhas bochechas se erguerem e as covinhas se repuxarem novamente. Pensei em dizer isso para a menina do coração desacelerado, que ela se sentasse ao meu lado à espera de outros motivos, mas não queria gastar minhas primeiras novas palavras com alguém que já não ria de suas decepções.

 

 

 

 

 

VILAREJO

2013

 

Na cidade das nuvens os homens melados de doce observam o céu em silêncio, deitados em areia já fresca, regados de álcool. Do alto das dunas o vento corta as canelas dos que vagam e as deixam todas largadas por onde passamos. As línguas que se cruzam continuam desconhecidas e os chinelos vão se gastando aos poucos, até que os pés se alisem e fiquem da cor dos olhos. Na cidade das nuvens não aceitam dinheiro, mas não deixam de cobrar. Se eu fosse outro e me mudasse para cá logo enjoava de tudo tão bom e bem, de tanto amor transbordado. Numa esquina esquecida onde apenas os moradores passam encontrei um desses alados desmaiado com as penas sobre a cabeça. Aqui as drogas são muito mais fortes... Continuo deitado nas areias pisadas e sofridas da praia ouvindo o mar, feliz por ter tantas ondas, explicar onde ficam as três marias e para que serve o cruzeiro do sul. Deixo a lua não me bronzear enquanto servem mais copos, cantam em fogueiras elevadas e dançam e chamam seus exus sem que eu entenda o porquê de tanta cerimônia. Gosto do silêncio do escuro quando refresco meus pés na espuma e olho a pequena vila de longe, iluminada e doce como minha pele. Para chegar aqui a distância não é medida em horas, apenas em bons pensamentos e algumas indicações. O vento é mais forte, o calor mais intenso e as respirações mais tranquilas. Tenho vontade de voltar sem ainda ter ido, mesmo achando que não é para mim. Quando eu crescer quero ser anjo, sem me cansar de ter que bater asas e voar por ai. O ar que me enche os pulmões faz varrer o que não vale a pena e eu, assim, vou me deixando levar.

 

 

 

 

 

DESAMOR

2012

 

quanto menos anuncio minha chegada

quanto menos te procuro

e nos falamos

quanto menos nos olhamos

e faz de conta que

desmereço

desinvento 

e quase esqueço

quanto menos você

quanto menos

a gente

pra sempre menos

 

e ficamos de não contar

os dias seguintes

contando

 

 

 

 

 

QUANDO FOI

2012

 

Ele inventou de gritar e foi girando para casa. Até muito pouco tempo não demonstraria nem cinco por cento daquela emoção. Teria guardado para si um suspiro desatropelado e só seu, de baunilha com serenidade. Fez como se estivesse sozinho, como se fosse outra pessoa. Seriam muito mais interessantes os dias que viriam e não teria mais nenhum daqueles compromissos rotineiros e olhares estranhos. Estava livre para voltar. Parou de girar e correndo colheu da janela da dona Fulana uma toalha que se transformou em nova capa. Tinha óculos grandes e quadrados e no bolso de sua calça algumas moedas. Abriu os braços lentamente, com as palmas das mãos para fora e os dedos unidos. Puxou todo o ar que podia, encheu as bochechas e saltou... Uma menina de sete anos conta que pôde vê-lo voar por quase dez metros e sorrir para ela enquanto o fazia, mas crianças assim não entendem de distâncias. O menino nunca mais foi visto. A polícia investigou um possível sequestro, atropelamento e até mesmo os boeiros daquela região. Alguns garotos espalharam que ele voltara para seu planeta de origem, o que de certa forma confirmava sua solidão e o depoimento da outra de sete anos. Não deixou herança de bolinhas de gude. Não se despediu da menina por quem era apaixonado há quase três meses. Não chorou. Inventou de se desinventar e foi.

 

 

 

 

 

BOTÃO DE CIRCO

2012

 

Na sauna do circo todos os palhaços suam quando sorriem. As mulheres tomam banhos de mangueira, enquanto pulam em trampolins montados para que as pequenas crianças malabaristas as enxerguem mesmo quando olham para cima. A vida é levada em vagões e janelas pintadas de vermelho, amarelo, anil e ferrugem. Os cachorros usam estrelas em suas testas como proteção e latem para os fantasmas que rondam suas pequenas casas. A cada nova partida o céu por onde o circo passa se torna roxo, mas somente os leões percebem isso. O mágico se esconde de todos e não ensaia seus números, o que torna seu espetáculo mais interessante. A mulher barbada e o homem mais forte do mundo são a mesma pessoa e ninguém ousa questionar. O malabarista é encarregado de lavar os pratos e o equilibrista fica de enxugar. A lona é erguida ainda pela manhã, quando o sol está por vir e apenas os homens sérios que não se importam com a magia do circo estão nas ruas. Um único varal extenso como a família que ali existe é montado e sobre ele as roupas de todos são estendidas. Há duas semanas um menino chegou, com uma bermuda gasta e uma camiseta de botões abotoados puladamente. Com cheiro de pipoca entrou sem pagar e se sentou no lugar mais alto que encontrou. Eram muitas as crianças e antes de começarem as apresentações aqueles que não subiriam ao palco vendiam doces e brinquedos para os pais desinteressados. Tiravam fotos das famílias para depois venderem e foi assim, como sempre faz, que um dos acrobatas descobriu que o menino estava sozinho. Notadamente diferente, passou a ser observado de perto na semana em que o circo ficou naquela cidade. Ia todos os dias e entrava por uma falha na lona que não havia sido percebida até então. Esperava que algumas crianças se agitassem e pulassem pela frente das cadeiras para correr com elas e se acomodar livremente. Fazia calor e todos suavam muito, mas ele estava com a mesma roupa por todas as feiras que a semana tinha. Seus botões eram os únicos que se alteravam em seu corpo magrinho. Ele ria do palhaço ainda que já tivesse ouvido a mesma piada algumas vezes e se impressionava com os números nas alturas. Todos já sabiam de sua presença e assim como quem não quer nada iam deixando comida por perto para que pudesse se alimentar. O menino ria com a facilidade de uma criança feliz, abertamente e com o peito cheio. A semana passou e a lona começou a ser recolhida. O varal foi guardado e o céu arroxeou. Dessa vez o circo estava angustiado e não sabia se ia de vez embora. Foi quando estavam discutindo o que fariam e se fariam que o menino surgiu na roda, sem ser percebido, e perguntou baixinho para uma das crianças se eles passariam por perto do mar. O acrobata o colocou nos ombros e todos concordaram com a decisão: passariam.

 

 

 

 

 

SEGUNDO ENCONTRO

2012

 

Encontraram um corpo embaixo de minha cama. Eu não me assustei, afinal de contas, essas coisas acontecem. Ela já estava com os olhos negros e fundos e a mão sobre o meu tapete azul, que passou a combinar com seu novo vermelho. Docemente gelada esperava a hora em que alguém lhe daria falta pelas ruas ou bares que frequentava. Não usava nada, apenas uma maquiagem borrada nos cantos da boca. Quieta, ninguém sabe ao certo há quanto tempo estava com as fotografias que a observavam se despedir de sua alma. A porta não estava trancada e ninguém mencionou arrombamento. Aqueles que a acharam não mexeram em nada. A polícia não mexeu em nada. Sua mão continuou esticada para onde era possível ver ainda que eu estivesse deitado de lado com a cabeça em meu travesseiro. Naquela noite dormi tarde e não me lembro quais foram suas últimas palavras ou se já nos conhecíamos de outras vezes. Não me lembro sequer de seu sorriso ou jeito de falar. De longe vi a multidão que cercava a calçada do prédio de dois andares em que morava. Às vezes penso se é certo chamá-lo de prédio, mas logo também me esqueço disso. Atravessei os ursos que esperavam do lado de fora em busca de migalhas de sentimentos e entrei novamente em meu quarto. Quando a vi, confesso, meu olhos caíram tristes e se fecharam lentamente. Tinha uma dúzia de rosas em uma das mãos que não faziam mais sentido e nenhuma vontade de sair ou continuar ali. As rosas ficaram e os homens pediam explicações. Silenciei e me aproximei dela, que se escondia de todos com os monstros do escuro que somente crianças conseguem ver. Estávamos, ainda desconhecidos, novamente juntos. Um vizinho gritou meu nome e disse ter me visto com ela. Deitei ao seu lado sem lhe tocar a mão, apenas as pontas dos dedos, e por sobre o tapete, com os olhos alinhados aos seus, perguntei baixinho o que tinha acontecido. Ela não respondia e os homens ao meu redor se aterrorizavam aos poucos nos olhando. Tinha o gosto do seu batom em minha boca e as marcas de unhas nas minhas costas. Eu também não vestia nada e contrastava com o azul céu do tapete que me abraçava e me deixava um pouco mais quente do que ela. Foi como acordar de um sonho longo e me deparar com uma realidade que não a minha, mas outra qualquer que me impedia de levantar e ouvir novas vozes. Ela me abriu seus tristes olhos. Estava apaixonado.

 

 

 

 

 

HERÓI

2012

 

Na televisão eles brilham e iluminam em casas que não existem. Um deles, particularmente, não tinha nada de tão especial para que fosse chamado em emergências ou decepções, mas era querido quando muito por seus amigos e familiares. Pontas de facas soltas e muitos dedos para cortar. Assim ele era, ou queria ser... Existiam mulheres ao seu redor, mas seus inimigos eram poucos e a inveja quase invisível. Na multidão parecia um homem comum e na solidão de seu banheiro, enquanto tomava longos banhos de banheira com espumas coloridas, destacava-se de leve. Seu nome era inconfundível, muito embora algumas crianças não conseguissem pronunciá-lo e o chamassem pelo apelido que desgostava. Tinha o rosto fino e comprido, desses que se nota semelhança com nuvens que passam e deixam rastros de saudades. Certo dia, ainda antes de tudo isso, dos banhos e das crianças, decidiu ser herói e colocou uma capa amarela amarrada ao seu pescoço. Bobagem que nas primeiras esquinas percebeu e com ela fez abrigo a um homem que dormia no chão, acabado por uma luta com garrafas vazias. Nunca havia lutado, nem nunca precisou. Tornou-se herói por circunstâncias da vida e acabou por continuar com aquilo, que não feria ninguém e dava esperanças a alguns poucos. Gostava de voar de avião, de correr o mais rápido que podia pelos parques, de mostrar o quanto era forte nos supermercados e de aparecer na televisão em reality shows para ser ele mesmo, mais um homem heroicamente normal.

 

 

 

 

COMEÇO DE DOMINGO

2012

 

"O dia ainda está no começo,

mas eu já me sinto no final.

E tenho tão poucos anos,

tão poucos amo."

 

Homem de quarenta e quatro anos caminha em um parque abandonado, desses em que as árvores já não dão tantas folhas e as crianças não brincam mais. Ele usa uma blusa com proteção nos cotovelos, marrom, está com as mãos livres e olha para o céu como se filosofasse sobre uma possível chuva. Senta-se em um banco e descansa os joelhos. Uma criança com camisa de botões, metade para fora, metade para dentro, corre até seu banco, fica em pé sobre ele, apoiando no homem, e grita para ninguém ouvir:

 

- Pique! (Ri desesperadamente, vendo o pavor de ser pego se dissipar em segurança.)

- Com licença. Você está com as mãos na minha cabeça. (Retira suas mãos e o faz sentar-se ao seu lado.)

- Com a cabeça onde?

- Com as mãos na minha cabeça.

 

O menino se senta corretamente, limpa um pouco de sua camisa de botões, retira uma pedra de seu bolso e a entrega para o homem.

 

- Toma, pra me desculpar pela confusão.

- O que é isso?

- Tem gente que chama de pedra...

- E você, chama de quê?

- De pedra, ué.

- E... Enfim, onde estão seus amigos? (Fala querendo que ele saia logo dali.)

- Que amigos?

- Os que você estava brincando agora há pouco.

- Não tinha ninguém, só eu e essa pedra. Daí você apareceu e eu achei uma boa oportunidade de...

- Colocar a mão na minha cabeça e me dar uma pedra?

- Pode ser também.

 

O homem olha para cima. Parece que a chuva realmente vai chegar em poucos minutos.

 

- Acho melhor eu ir andando, obrigado pela pedra.

- E o que acontece se você se molhar?

- Sua mãe não vai gostar que você fique resfriado.

- Se você se molhar...? (O menino prolonga as palavras e faz um gesto com a mão para frente, para que sua pergunta seja realmente respondida.)

- Eu me seco depois.

- Então fica mais um pouco, deixa quem se importa com isso correr pra lá e pra cá.

 

O homem sorri, achando o menino estranhamente inteligente.

 

- Você sempre brinca aqui sozinho?

- Só quando não tem ninguém.

 

Os dois riem.

 

- Quase nunca tem alguém por aqui e eu moro naquela casa de muro azul ali. (Aponta o menino com sua pequena mão.)

- Você que desenhou as nuvens brancas?

- Foi...

- Ficaram boas.

- Obrigado! Ninguém nunca repara nelas.

 

O homem abaixa os olhos. A chuva começa aos poucos e tranquila.

 

- Faz tempo que você não toma chuva? (Fala percebendo o incômodo do outro.)

- Muito... Eu costumava sair correndo de casa quando era criança e chovia.

- E por que não faz mais isso?

 

Ele respira se preparando para uma resposta, mas desiste dela.

 

- Não sei...

- Você podia morar por aqui. Daí, quando chovesse de novo a gente não precisava nem combinar, os dois saiam correndo de casa e...

- Ia ser divertido.

 

A chuva engrossa.

 

- Você parece cansado.

- Não tenho tido muito tempo para nada.

- Todo mundo tem tempo de sobra, olha pra mim.

- Você tem que estudar.

- Mesmo assim faço tudo o que gosto.

 

O menino se levanta, abre os braços e coloca a língua para fora. O homem abre a palma de uma das mãos, levanta-a e vê de perto escorrer para dentro de seus braços as gotas. Ele também se levanta e pega na mão do menino, que o olha de baixo para cima com carinho.

 

- Vamos, sua mãe já deve estar preocupada.

 

Levanta o menino e o coloca em seus ombros.

 

- Acho que estão faltando alguns passarinhos naquele muro. (Fala o homem para seu filho.)

- Quando passar a chuva a gente pinta.

- Promete?

- Prometo.

 

 

 

 

PARA LER COM SONO

2012

 

Os homens bons se escondem depois da meia noite, sozinhos em suas camas, sonhando com as estradas de putas que cercam suas casas. Os homens bons afastam seus olhos vermelhos dos espelhos de banheiros públicos e não mijam em árvores alheias. Os homens bons também podem ser mulheres boas, que fazem tudo isso traduzidamente para seus perfis característicos. Mas deixemos as putas, o vermelho e o que não interessa... Existem pessoas boas que não dormem após a meia noite. Que se deitam e por mais leves que estejam suas consciências, por mais quilômetros que tenham rodado em suas bicicletas azuis em nuvens brancas, não conseguem dormir. Preenchem seus travesseiros, começando com um passado recente em trilha nostálgica. Pulam o presente, que se deita com elas, e imaginam ao menos quatro futuros antes de dormirem. Depois acordam para fingirem que vivem um deles. Pessoas boas também trabalham, comem e se divertem. A maioria não se enxerga como diferente ao longo dos dias, mas ao se deitarem percebem que carregam consigo mais do que elas mesmas. Existia, em uma cidade qualquer, dois heróis que viviam para que nenhuma criança se perdesse quando brincasse de esconde-esconde. Certa vez, os dois conversavam e por distração perderam um garoto de apenas três anos. A cidade se voltou contra os dois, que nunca ganharam nada para aquilo, e decidiram em oração conjunta de mães que choravam e soluçavam a procura do pequeno menino que um deles teria que partir para nunca mais voltar. Assim, o que ficasse teria toda a atenção para as crianças e a fragilidade da solidão para fazê-lo responsável por cada segundo que vivesse. O que se foi nunca mais voltou e como sombra afastada os dias esfriaram todos. O garoto estava dentro de uma máquina de lavar e foi encontrado algumas horas depois, levemente molhado. Ninguém se desculpou. Ninguém sabe o que aconteceu com o homem que foi embora, nem mesmo sabem o que aconteceu com o que ficou. Nenhum deles consegue dormir após a meia noite, nem o menino de três anos que ganhou de todos no esconde-esconde e ainda não sabe o que são putas ou banheiros públicos.

 

 

 

 

AQUELA NOSSA HISTÓRIA

2012

 

Casarões desligados em restos de maresia e história que não colam mais nas paredes. Pessoas que cruzam e invadem com os olhos a distância mantida. Azul e calor como se não existisse frio em nenhum outro lugar. E ruas de pedras. E pontes que secam e enchem. E vontade de conhecer tudo sem documento, ainda que tudo seja longe. Nas areias, corre e salta sem medo de furar os pés. Bebe para hidratar. Bebe para preencher. Bebe para enlouquecer. Mergulha. E as pessoas ao redor enlouquecem, cada uma da maneira que pode. Traem suas realidades, arrebentam com pedras e garrafas desconhecidos. Subimos escadas que nos levam a ruas iguais, de paralelepípedos, que nos fazem sentir diferentes nas pontas dos pés. Eles doem, as pernas suam, os banhos são frios, os moradores alegres. Sussurram onde não posso andar a noite e feito turista vou mesmo assim, em busca de outros sabores. Conversamos com as portas e elas nos contam sobre seus habitantes. Quando fechadas, são eles que nos contam sobre suas portas. E os guias passam falando sobre os números e história e nossas inocências os seguem inventando histórias, para logo em seguida fingirmos conhecer tudo aquilo e conquistarmos seguidores. Com as horas e novas marés nos conhecemos e gostamos uns dos outros. Apaixonados e sem querermos dormir nos inventamos em um paraíso sujo que também nunca dorme. Elas nos indicam os caminhos e riem com o poder de mudar nossas direções. Vamos nos avermelhando, as tosses chegando e o tempo de tudo aquilo passa, mas nós continuamos. E gritamos a cada passo para sermos ouvidos e lembrados, sem nos esquecermos de cada detalhe azul e ensolarado que nos passa por de trás dos olhos, para a saudade ficar tão quente quanto tanto ficamos.

 

 

 

 

 

FODEU

2012

 

Acordar destruído e perceber que continuo vivo, que as pessoas continuam inteiras e que ainda respiro. Depois do acidente, com o gosto de vou morrer na boca, espalhado em cor que de tão forte não se sente, eu pensava no que não se ensina nas escolas: se eu morrer agora, fodeu. Não queria saber de anatomia, se meus ossos estavam quebrados, quantas costelas tinham ido brincar de cabra-cega. Tudo o que eu pensava era que eu estava por alguns segundos de fechar os olhos para não mais sonhar. A religião nessas horas parece inteligente, abraça e conforta o desespero de um jeito torto que nos faz pensar que, talvez, tudo vai dar certo. Antes disso a loucura invade os pensamentos que ainda restam e o começo de um choro desesperado misturado em grito de "me salva" treme as mãos. A relatividade entra em ação e o "se foder" parece não ter mais tanta importância... Já não existe mais volta, os cacos de vidro não cortam e o silêncio parece idiota. Vejo como se fosse através de um vidro borrado, completamente molhadas, pessoas que correm ao meu encontro. Querem ver como eu estou, mas nem eu sei. Pedem para que eu continue acordado. Eu sorrio feito o Coringa e sussurro para que se acalmem. Sou eu que estou fodido, não vocês. Chega o homem de branco com uma cama gelada e três tapas para a minha cara. Eu levito e de repente a sirene se torna música. Ninguém me conhece, ninguém me culpa. Não sei do motorista, nem me lembro se eu era pedestre. O médico que se chama Jesus diz que eu vou viver. Depois de tanto tempo pensando na vida, completamente egoísta, respondo e em seguida me arrependo pela falta de educação: foda-se. E ligo logo para quem interessa.

 

 

 

 

PARTIR

2012

 

largar da mão
andar em frente
andar pra trás
não olhar
fechar a porta
sentir saudades
sorrir
silenciar
chorar abafado
correr
pra qualquer outro lugar
e apagar as luzes
dormir sozinho
musicar
desapaixonar
resfriar-se
na ponta do pés
ou
ou só mudar
continuar

de outro lugar
escrever
nunca enviar
esquecer
de tudo
fingir
chover
pedir sem açúcar
trocar de roupa
trocar de amigos
dormir no sofá
estranhar-se
em frente ao espelho
querer
tudo
mas nada para agora
fazer sofrer
não olhar
nunca olhar
em frente ou pra trás
e cantarolar
o que está por vir
esquecendo a letra

da ponta da língua

 

 

 

 

UM BEIJO

2012

 

Ele lhe prometeu um beijo apenas e nada mais. Pensou por alguns segundos, fez que deixou passar e antes que piscassem os olhos estavam de bocas coladas com movimento. Era menina de paixão intensa, sem deixar o rosa das bochechas desencantar seus olhos pintados de preto. Os ombros largos dele se encolhiam para receberem bem os outros lábios que chegavam. Foram assim por mais de dez minutos, sem se olharem ou perceberem as estações que fechavam. Mais meia hora e ela não se separava. Homem de palavra, tendo prometido um beijo, ainda que nada mais do que isso, também não lhe soltava a boca, que começava a fazer cada vez mais parte da dela. Passou o dia e durante a noite deixaram os lábios adormecerem juntos. No começo, ainda desorientado pela intensidade, ele apenas reagia. Foi preciso acordar ao seu lado e perceber que não estava mais só para que a provocasse com uma mordida e começassem tudo de novo. Tomavam banho juntos, e o banho parecia muito mais divertido. Davam um jeito para comerem e quando precisavam falar alguma coisa cada um dizia uma palavra. Juntos e bonitos se esqueceram de que um dia estiveram separados. Ninguém mais se lembrava de como eram ou, se alguém se importava com isso, eles é que não se importavam. O beijo durante o inverno aquecia até a ponta de seus narizes. Seus corações estavam inchados e quase não tinha mais espaço para os pulmões, que se esforçavam para continuarem com os suspiros. Em uma noite qualquer em que o céu estava diferente e as estrelas mais coloridas do que o normal ela desgrudou sua boca da dele, distraída com a aurora. Tendo feito isso imediatamente se arrependeu. Os dois se olharam estranhos, como se agradecessem um ao outro, e ela fez que foi embora. Sorriu sem jeito, beijou suas mãos e começou a andar em direção ao que nem sabia ser. Ele, parado e com frio, de onde estava, em seu silêncio e ainda com o gosto do primeiro beijo na boca, perguntou baixinho: "Mais um?". Pensou por alguns segundos, fez que não ouviu e antes que piscassem os olhos estavam juntos novamente.

 

 

 

 

ESPERANDO

2012

 

não é chuva
é mar peneirado
alagando nossas cabeças
em dias espaçados
quero açúcar
e te encontrar
sem saber bem onde
chegar assim
em segundos leves
próximo da boca
pra dizer em beijo
um oi sem jeito
sentir seu rosto
cantar
em paz
dizer o que não dizemos
arder os olhos
e ouvir lá fora correr os sonhos
deixar voar quem somos
sem faltas
seremos plenos
teremos planos
faremos filhos
brincamos
e a chuva não para
sem chuva nem ser
sem sermos
continuo ouvindo você chegar
baixinho
lá fora dos sonhos
em saudades
com falta
aguado
esperando quem sabe
o que eu nem preciso
seus sorrisos
de canto de olho

 

 

 

 

PARA ANTES DE SE MOLHAR

2012

 

Se a chuva for duradoura e longa e, ainda assim, você não quiser se molhar, compre uma pessoa e jogue-a em sua vida. Deixe que ela faça tudo por você, conheça novos gostos, visite outros lugares... Sua casa, mergulhada em cachoeira, continuará fazendo barulho, mas você não precisará mais sair pela porta da frente. Pode se deitar no sofá e assistir ao que quiser imerso em almofadas. Sem óculos de nadar, na rotina dos dias que te moviam em correnteza, esse desconhecido vai viver seu presente na tempestade dos acontecimentos que serão responsáveis pelo futuro próximo. Escolha alguém com os mesmos gostos musicais e preencha uma ficha com detalhes de personalidade. Assim, nas situações mais adversas, ele vai saber como se comportar. Cuidado ao escrever nunca ou sempre, porque até mesmo para você essas palavras nunca são sempre as mesmas. Faça um arquivo com fotos de pessoas que conhece, marcando as importantes e as ainda mais importantes. Se puder, coloque alguns vídeos de você em lugares que ama estar, explicando como o vento brinca com seus cabelos, por exemplo. Para não se molhar vai ser preciso muito trabalho e talvez você sue três ou quatro camisas. Pense bem se vale a pena deixar outro alguém se resfriar por você. Caso o guarda-chuva pareça dispensável abra bem as janelas. Deixe a água entrar e transformar seu sofá em barco livre. Se enjoar lembre que as margens estão por perto, que as almofadas bóiam e que a chuva é só água espalhada em céu azul.

 

 

 

 

ÚLTIMO SONHO

2012

 

Eu hoje sonhei com um céu, em campo aberto e colorido. Eram pipas iluminadas de ponta a ponta, fluorescentes e encantadas por aviões que ali passaram e soltaram suas fumaças. Rodopiavam e desviavam dos fogos de artifício que tinham formas de setas e dançavam em caracol. Estava tudo escuro em um pós pôr-do-sol. Meus amigos assistiam calados. Nunca vi tantas estrelas juntas. Tão rápido quanto minha fascinação crescia escureceu, e dali todos saímos andando. Lembro de um filme em que o céu era feito como as pessoas um dia o imaginaram. Ainda não decidi como será o meu, apenas sei quem estará por ele. E quando morrer, porque essas coisas acontecem com todos, espero que seja como aquele sono incontrolável no sofá de casa, de se fechar os olhos e ir-se indo aos poucos, quase sem saber por que ou para onde. Perder as forças e os sentidos tranquilamente, começando novas histórias, sabendo que vou de boa vontade e que se quisesse me levantava dali e continuava vivendo. Às vezes sinto que minha alma é mais velha do que meu corpo e, quando penso nisso, envelheço ainda mais. Quantas vidas os sonhos têm e quantas continuam nos ninando enquanto de olhos abertos passamos pelos dias? Fico de viver em outra noite, fazendo em retalhos o que um dia pode ser meu novo céu.

 

 

 

 

RECORTES DE UMA IMAGINAÇÃO INVENTADA

2012

 

Trago o amor em seis palavras e deixo que entre como música no interior de seus ouvidos. A vida vem em conta gotas, em copos de água e cachoeiras. Essa água, espalhada em tempos e vontades, preenche os vazios de espaços das nossas bocas. Inventei uma flor e lhe dei cores e cheiros. Como se pintada à mão, como se de mentira, vivia entra as outras. Nada a prendia ali, a não ser as outras flores que amava, as coisas que fazia e as grades que não via. Se me deixar em silêncio, aos poucos e diariamente, preencherei esse vazio com meus pensamentos. Assim, nossa distância vai aumentar e quando voltar, e quando quiser mais uma vez falar, estarei completamente diferente. Serei eu eternamente feliz, até que a tristeza chegue. E quando chegar, porque ela chega sem motivos, lembrarei de quando era eternamente feliz. Tem essa história de uma menina que acha que viveu lembranças que nunca aconteceram. E na beleza da imaginação revê quem nunca viu, abraça e sente o calor do peito de quem não mais presencia seus passos, toma café em casa distante e brinca de ser bonita... Os homens crescem e se esquecem dos motivos que os fizeram crescer. Liguem para quem nunca atende ao telefone e peçam para que os visitem de vez em quando, ou outra vaidade qualquer. Sonhem com seus sonhos. Duas crianças bateram em minha porta para entregarem presentes. Eu as recebi e agradeci como pude. Saíram correndo como cachoeiras que são e foram ser eternamente felizes em infância com tempo medido. Você tem saudades de que? Como passa seus dias? Vamos inventando esse futuro todo que espera cada passo, cada gota, cada nova ideia recortada e contada assim sem sentido. E depois releia para voltar a imaginar, com uma boa música, esperando a hora para dançar.

 

 

 
 
por Nando Dalberto